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No longínquo ano de 1972, Lô Borges lançou dois LPs emblemáticos e decisivos na história da discografia brasileira: ao lado de Milton Nascimento, o “Clube da Esquina”, célebre e sacramentado testemunho musical de uma geração, cuja capa trazia dois meninos em chão de terra; e o outro disco, com apenas o nome do artista e um par de tênis surrados, que ficou mais conhecido como o “Disco do Tênis”. Com apenas 20 anos de idade, e com 4 músicas já gravadas em 1970, o jovem deixaria 23 canções registradas em estúdio, apenas naquele ano.

É o repertório deste primeiro disco solo, que se tornou um dos grandes clássicos da música brasileira, que o mineiro vai apresentar em sua estreia no palco do Psicodália, em 2018.  Em 2016, Lô Borges enfim decidiu revisitar o singular território mítico do Tênis, e para isso convidou o cantor e compositor Pablo Castro para reconstituir a teia sonora do disco em um show ao vivo. Munido de todas as minúcias ouvidas ao longo de mais de 20 anos de reverência ao LP, Pablo convidou os jovens músicos Guilherme De Marco (violão, guitarra e vocal), Marcos Danilo (violão, guitarra, percussão e vocal), Alê Fonseca (teclados), Paulim Sartori (baixo, bandolim, percussão e vocal) e D´Artganan Oliveira (bateria, percussão e vocal) para juntos apresentarem o repertório do “Disco do Tênis” na íntegra, e nos mesmos arranjos originais, acrescido das músicas de Lô do disco “Clube da Esquina”, também em seus arranjos clássicos. Portanto o show “Tênis Original” é, além de um reencontro de Lô com um recorte muito especial de sua própria obra, também um encontro de gerações. Músicos que passaram seus anos de formação estudando discos como este, agora podem tocá-lo ao vivo, acompanhando o seu criador.

Uma obra que resiste em sua plena integridade após mais de quatro décadas demonstra um fôlego e uma pertinência difíceis de sobrestimar. E um show que revitaliza a música contida nela, com frescor e naturalidade, certamente resultará numa experiência única.

A expressiva dicotomia que permeia os dois álbuns na construção da persona artística de Lô é marcante: enquanto do “Clube” emergem suas canções mais reverenciadas, consagradas, regravadas e sempre presentes em suas apresentações, como “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, “O Trem Azul” e “Paisagem da Janela”, do seu primeiro esforço solo, grande parte das canções ficaram circunscritas à enigmática trajetória cult do “Disco do Tênis”, uma pérola bastante singular da produção setentista de Lô e, também, de todo o grupo de compositores, instrumentistas e arranjadores que se firmariam como o Clube da Esquina.

Ao contrário das canções do “Clube”, as faixas do “Tênis” são como haicais, pensamentos, devaneios, orientados sobre uma mesma procura, um ethos singular da personalidade do criador, conjugado com a presença decisiva de nomes como Beto Guedes, Toninho Horta, Nelson Ângelo, Sirlan, Flávio Venturini, Tenório Jr, Vermelho, Novelli, Robertinho Silva, Dory Caymmi, e na de seus letristas mais importantes, Ronaldo Bastos e principalmente o irmão Márcio Borges. É notável, contudo, como o disco soa pessoal e carrega uma forte unidade temática, alinhavando melodias sinuosas, harmonias surrealistas e letras incisivas, ilustradas por arranjos intrincados e sob uma atmosfera sonora muito peculiar da época. O “Disco do Tênis” foi sendo redescoberto, e recentemente foi incluído no livro “1.000 Recordings To Hear Before You Die” do norte-americano Tom Moon.

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